domingo, 30 de abril de 2017

Notas sobre Olavo de Carvalho - Parte I

A primeira vez que me atentei de fato para o nome de Olavo foi após uma das minhas entrevistas de pesquisa de campo do meu doutorado. Eu entrevistava dois coordenadores de um movimento de direita daqui de Fortaleza, Ceará. Senti neles uma ponta de ironia ao afirmarem, nas entrelinhas, que eu seria mais uma das idiotas úteis, no caso, do feminismo. Isso pois, segundo a percepção deles, eu não seria de fato uma feminista apesar de me afirmar como tal. Seria apenas uma massa de manobra do feminismo, uma “idiota útil do feminismo”. Ora, estava eu ali grávida de poucos meses, casada e de aliança no dedo, com vestido longo florido, brincos grades, cabelos estirados, batom, ué, bem feminina. Uma imagem que choca para quem fabrica a ideia de que uma feminista não pode ser também feminina. Em postagem de uma das coordenadoras do movimento no facebook, ela afirmava no mesmo dia da entrevista: as feministas estão abismadas como um conjunto de mulheres independentes que insistem em não se afirmarem feministas. E que estas eram as tais das idiotas úteis. Sim, a tal da indireta facebookiana que respinga em muitos, mas acerta o alvo. Lembro-me que perguntei qual teria sido o primeiro contato deles com o feminismo, qual seria a primeira leitura feminista para que eles pudessem formular essas opiniões sobre o feminismo. Nenhuma foi a resposta. Perguntaram a mim. Ora, ora, estudo feminismo! De Simone de Beauvoir à Sulamith Firestone. 

O que me impressiona não é nem que mulheres independentes não se afirmem como feministas. O que me assusta (incomoda?) é que homens e mulheres nunca tenham lido um texto feminista para se afirmarem como antifeministas; serem movidos a um ódio contra feministas que é alimentado apenas pelas redes sociais, memes de facebook, textinhos rápidos de links duvidosos de internet; imagens recortadas de seus contextos; ações do movimento que não são consenso dentro do próprio movimento; movidos por tratar o feminismo como algo homogêneo e consensual; ou textos de homens furiosos com o feminismo. A minha inquietação também é entender por que o feminismo tem gerado tanta repulsa nessas pessoas. Por que ideias como marxismo, socialismo, comunismo, direitos LGBTs e o próprio feminismo são alvo de tantas resistências coletivas?

Desde então, Olavo não saiu da minha cabeça. Assim como a esquerda teria seus supostos intelectuais, sua “inteligentzia” ou seus gurus, como nos cansam de dizer, assim também a direita fabrica seus intelectuais e seus minions dispostos a repetir certas asneiras sem questioná-los. Isso porque de um lado e de outro temos pessoas ávidas por líderes, pais todo-absolutos a quem possam obedecer cegamente.

Não é necessário ter apenas estômago para ler Olavo, mas rins para filtrá-lo e intestino para excretá-lo antes que nos cause qualquer infecção generalizada. Até gosto de um texto mais corrosivo. Não à toa gosto de Daphne Patai, Paul Beatriz Preciado, Virginie Despentes, apesar de não concordar teoricamente em muitos aspectos. Então busquei Olavo desarmada, mas cuidadosa.

No texto “Breve história do machismo”, do livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” (indicado, inclusive, pelos representantes do movimento que falei acima), ele vomita sua aversão ao feminismo, seu machismo, sua misoginia de forma crua. Num texto cheio de ironias, a intenção é afirmar que o mundo se fez com o trabalho duro dos homens enquanto as frívolas mulheres ficaram com a parte mais fraca, menos importante, menos trabalhosa do mundo. 

Em curtíssimos parágrafos ele vai da era de neanderthal até o mundo contemporâneo, o que já é de se estranhar para um leitor mais cuidadoso. Foram os homens que domaram as feras na era primeva do mundo, plantaram e colheram, caçavam, foram para a guerra, estiveram em cruzadas, desbravaram os revoltos mares nas expedições marítimas, enfrentaram os nativos. A história vista sob um ângulo totalmente superficial. A história que clama por heróis, líderes. Enfim, o trabalho pesado da história foi deles. Às mulheres couberam a parte frívola do mundo, como ler livrinhos fúteis. Mas, que mulher? Que mulheres liam? Quem eram as que não liam? Por que umas liam e outras não? Liam aonde? No interior de suas alcovas ou nas grandes bibliotecas das universidades? Tinham acesso à universidade? Se não, por que não?

Eram eles que estavam à frente das cruzadas? Mas, por que as cruzadas se faziam necessárias? Qual foi seu real motor político? Quem intelectualmente estava à frente do empreendimento cruzadístico? Quem foram as pessoas mortas na Inquisição? Por que torturavam, queimavam pessoas? Quem mais foi queimado?

Se meu trabalho doméstico é tão frívolo assim, por que todo o clamor para que eu o faça? Para que eu o cumpra? Para que eu retorne ao lar? Para que eu me dedique aos meus filhos, meu marido e minha casa?

O machismo, então, seria uma criação? O machismo de que se fala no texto, na verdade, seria a bravura do homem que enfrentou o mundo. Feministas teriam invertido o sentido do machismo. Foi o machismo que criou e desenvolveu o mundo.

Diante disso tudo me pergunto como mulheres conseguem digerir um texto desse. Como não enxergam? Que ferramentas poderíamos fazê-las enxergar? O que fazer para mostrar que não é questão apenas de força física que explicam as diferenças no mundo entre os sexos? A questão é: por que mulheres são vistas com a função “inútil” da história? E por que a “inutilidade e frivolice” do trabalho feminino é também exaltada como a virtude de ser mulher que deveríamos todas seguir? Por que as mesmas mulheres que defendem a exaltação desse papel da mulher não se revoltam (ou ao menos se inquietam) quando tomam seu trabalho doméstico como frívolo? Como teria sido possível o trabalho fora do lar se o trabalho do lar não tivesse quem o fizesse?

A questão não é troca de lugar, de tomada de posição, de quem tem mais força física, se homens ou mulheres. A questão não é dividir o mundo ou trocas as posições de homens e mulheres. As questões que devem ser colocadas são: que ideias explicam que mulheres fossem chamadas ao trabalho fora do lar durante os períodos de guerra? Que ideologia é essa que as chama novamente ao lar? Já não são mais necessárias? Que mulheres foram chamadas ao mercado de trabalho no período entreguerras? E aquelas mulheres que há muito trabalhavam, como as escravas? Por que incomoda estudar sobre a mulher ou buscar lhe viabilizar mais direitos? Por que incomoda que mulheres estudem e trabalhem? Por que mulheres saem em defesa de quem parece ser seu próprio algoz?

Mais uma vez me deparo com a paranoia do “mito da democracia de gênero” sendo estilhaçado no mundo: tudo estava bem até as feministas chatas, mimizentas, chegarem e mudarem o sentido das coisas. Mexeram onde não deveriam. Colocaram a mão no vespeiro.

Tudo caminhava bem até virem os historiadores e desvirtuarem a história da ditadura militar, pois a história que se conta não é a real. Tudo caminhava bem até virem as feministas e darem um novo sentido ao machismo nosso de cada dia. Tudo estava bem até sociólogos fazerem todas essas perguntas indesejadas. As ciências humanas tornaram-se alvos. Um metier de fazer ciências humanas tornou-se alvo.


O mundo parece estar dividido entre direita e esquerda, de modo que apenas o conceito de classes sociais já não da mesmo conta de explicar a realidade contemporânea por si só. Estamos entrelaçados pelas noções de raça, etnia, classe, identidade de gênero, orientação sexual e política. O problema é que as pessoas são mais complexas do que suspeitam nossas visões dicotômicas entre um mundo movido apenas entre dois lados opostos. As pessoas são mais leves fora das telas do computador, fora do tic-tac dos dedos nervosos batendo no teclado e criando posições políticas. São mais complexas do que uma simples divisão entre direita e esquerda. É possível se posicionar e é necessário ter uma posição, mas a minha posição não deve anular o outro como indivíduo. Discordar nunca foi anular. Discordar nunca foi anular a possibilidade de existência do outro. Discordar não deveria ser um exercício de se fechar diante do outro, mas de abrir-se para ouvir o outro. Deveria ser um exercício de diálogo, de sínteses possíveis, de convivências possíveis entre diversos. É nesse mundo que aposto. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

A vida nos rasga ao meio

Há situações na vida que nos rasgam ao meio. Pode ser a perda de um ente querido, uma separação, uma traição. São feridas que parecem nunca cicatrizar. São dores emocionais que parecem nunca se curar e que a gente pensa que não vai dar conta de suportar. Dizem que pancadas doem, mas há palavras e ações que deixam vazios na alma, lágrimas que parecem não se esgotar, rasgões dentro da gente. 


O tempo, esse não vai parar para você sofrer a sua dor, sarar sua ferida. O trabalho te solicita. As contas não param de chegar. As responsabilidades chegam. As pessoas vivem ao redor como se nada tivesse acontecido. O universo continua girando apesar da sua dor. Você se vê, então, tendo que sobreviver assim, mesmo ferida. É a lei da vida, como se dissesse: você tem que suportar, vai ter que viver, dê um jeito! 



Não há dores maiores do que você possa suportar. Apesar da vontade de morrer em cima da cama, de não viver mais, você continua ali, vivendo, sobrevivendo. Os dias passam como conta-gotas. A dor que você sente amanhã já não é a mesma que você sente hoje. Dói, mas de um jeito diferente, cada dia menos, mesmo que pareça pouco. Anos depois você pode olhar para as marcas, lembra que elas estão ali, mas já não ardem mais. 


Ninguém nunca está preparado e forte o suficiente para nada isso. É sempre o improvável do que vai acontecer e de como vamos reagir. Todas essas coisas nos pegam sempre de sopetão, tiram nosso chão e jogam areia nos nossos olhos. Mas você vive, tem que viver! Depois você muda, porque parece que a dor te dá a oportunidade sempre de reinventar algumas pessoas melhores e outras piores, mas sempre de um jeito diferente do que eram. Não há rasgo que não deixe um remendo. 


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Estou tirando minhas credenciais de feminista

Eu tiro de mim o crachá de feminista, pois não sou nem forte como eu queria, nem autossuficiente quanto esperam que eu seja. 
Uma feminista deve ser uma mulher independente. Eu até sou. Ganho um pouco acima da média, dirijo meu carro, pago minhas contas mensais, tenho uma profissão definida, mas há meses em que as contas apertam e sinto falta de alguém para me ajudar a pagá-las e a resolver as coisas. 



Eu deveria ser uma mulher que não se importa com a opinião alheia, que se veste, se calça e se penteia para si mesma e que age como quer agir. Eu não sou essa mulher. Eu me importo se as pessoas me acham mais magra ou mais gorda, se repararam na minha saia torta, se estou cheirando bem, se meu cabelo está impecável, se minha maquiagem ficou legal. Também me importo com o grau de julgamento das pessoas e às vezes me escondo dele. Eu também me deleito em me vestir, calçar, pentear e ser para os outros: por que não haveria deleite nisso? A marquinha do meu biquíni faz com que eu me sinta melhor, mas também me faz bem parecer mais sensual. 


Além disso, tenho um lado espiritual que também bate forte no meu peito. Estudo nenhum foi capaz de desmistificar meu Deus. 

Também esperam que eu seja autossuficiente, dependa apenas de mim mesma, viva minha vida com quem eu queira (um, dois, duas, ou mais pessoas, quem sabe), mas tenho minhas dúvidas se afeto se constrói no poliamor ou em relações extraconjugais (às vezes o subverter as coisas parece mais do mesmo, um nome diferente para definir uma coisa que sempre existiu, a falta de fidelidade do ser humano com seus iguais). 


Eu me sustento emocionalmente também. Não sou só um corpo, nem só uma mente, sou emoção e afetos, tudo muito misturado. Sustento-me também da rede de afetos ao redor: família, amigos, um companheiro e filhos. Eu dependo emocionalmente deles. Minha felicidade não seria completa na suposta fachada de independência misturada à autossuficiência. Não sou autossuficiente, pois dependo de muitas pessoas ao redor para me manter bem. 

Eu queria ser aquela mulher feminista que sabe muito bem escolher com quem se relaciona, mas eu nunca soube, talvez nunca saberei. Eu me vejo envolta em relacionamentos abusivos e não sei como sair. Já perdoei quem me fez muito mal, mesmo após o feminismo. Eu faço péssimas escolhas emocionais. 



Eu falho, eu erro, sou impulsiva, sou carnal, sou humana, tenho raiva e logo depois amor, às vezes minha vontade é matar e logo depois não, jogo merda no ventilador e depois me vejo tentando juntar a sujeira que ficou. Talvez o rótulo de feminista seja algo que eu não possa atingir. Sou humana demais para isso. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O polarismo no Brasil: uma versão

Às vezes é bom sairmos dos nossos gabinetes de estudo e das tensões do mundo virtual e ver o que está acontecendo lá fora. É importante nos oxigenarmos (ou mesmo intoxicarmos) com o que está acontecendo no mundo. Depois voltarmos para nossos planos individuais e confrontarmos nossas subjetividades com as tensões de lá: como elas acontecem dentro de mim? Como esses outros lá de fora fazem guerras ou festas em mim?

Hoje o dia me serviu para mostrar como as pessoas, até mesmo aquelas que estão numa posição tida como mais crítica e mais objetiva de enxergar a realidade, buscam líderes aos quais possam idolatrar. As pessoas não estão, na maioria das vezes, em busca de um debate no sentido profundo da palavra, discordar pela palavra e não pelo grito. Elas estão em busca de confirmar suas teses já formadas e fechadas. A religião e Deus foram destronados da universidade, mas elegemos outros que não tem esses nomes, mas os tratamos como tais. O caminho entre a afeição intelectual e emocional é curto e se misturam. Não vejo problema nisso até que a afeição emocional torne-se uma paixão cega e incapaz de confrontar o outro. Assim como existem pessoas que tem o ego amaciado e gostam de pedestal. Eu, particularmente, nunca quero ser colocada num pedestal, pois não nasci para ser adorada. Como diz Roxane Gay, no livro Má feminista (2016), “De modo geral, faço merda. Considere-me já como criticada.”. 

Eu vejo no Brasil e no mundo dois projetos de sociedade, dois projetos de mundo caminhando e em disputa. Não estamos vivendo um pluralismo político nos termos da Constituição, estamos vivendo um binarismo mesmo.

Precisamos entender que discurso acadêmico não é tudo. Ciência não é tudo. Nem tudo passa pelo meu currículo extenso, pela ciência ou pela universidade. Há uma vida para além disso e a vida na universidade terá reflexos sociais não só nos nossos cotidianos, mas no de todos. Ciência não é verdade absoluta. Discursos científicos não tem argumentos de autoridade sobre tudo e todos. A ciência não deve ser usada como cassetete sobre os outros. Verdades podem ser questionadas.

O projeto escola sem partido me assusta, mas precisamos notar também que a dura realidade do ensino já é uma censura escancarada. Os professores estão sujeitos todos os dias nas salas de aula pela censura dos celulares, tendo vozes gravadas sem autorização, recortadas, compartilhadas, publicadas; tendo as falas deturpadas; tendo carros arranhados por alunos que recebem notas baixas; sendo expostos em redes sociais; sendo caluniados e difamados fora de sala; sendo pressionados a dar notas para os alunos que não estudam e se sentem injustiçados por tirarem notas baixas; pelos alunos que não se responsabilizam pelo baixo rendimento acadêmico.

Os professores também são censurados em redes sociais nas quais nos encaixam nesses polarismos entre esquerda e direita, ainda que alguns não queiram ser encaixados neles. Nossas redes sociais viraram janelas das nossas vidas profissionais. Sou uma boa ou má professora a partir do que posto no facebook. As linhas são tênues entre vida particular e profissional. A influência que antes era exercida apenas em sala de aula foi ampliada para nossas vidas pessoais.

O mundo e cada pessoa é bem mais complexa do que o “ser contra ou a favor”, “estar de um lado ou de outro”. Há muitas ponderações para além disso! Estamos de tal modo imersos num polarismo político no Brasil que estar num ambiente com pessoas com posições diferentes é impossível. A minha questão é: movemos as mesmas forças e os mesmos gritos a esses outros quando eles são nossos pais? Nossos irmãos? Nossos amigos? Sim, porque cada um de nós vive a própria alteridade dentro de nossas casas. Cada um de nós lida com o oposto no nosso plano microssocial. Todos os dias somos confrontados com o que é diferente ou mesmo oposto. Parece que a vida está exigindo cada vez mais isso de nós brasileiros: confronte sua alteridade.

Eu me preocupo com a onda conservadora no mundo, mas me preocupo também com a intolerância disfarçada de democracia. As duas me assustam.  


O exercício de deparar-se com a alteridade do “estar com”, “falar com” o oposto, tornou-se impossível. E para onde vão esses outros que são vaiados e saem dos auditórios sobre frases de efeito? Para onde vão esses que negamos a oportunidade de fala? O que fazem a partir dali? Que decisões políticas tomam a partir dali? Com que posições vão? Que imagens ficam das universidades? Que tipo de atitude estamos alimentando neles? Que tipo de divisões estamos a fomentar mais ainda? Estamos mandando não passar, mas para onde, meus caros? Fora, para onde? O não lugar não existe. Esses outros que negamos serão sempre a companhia desagradável que vocês terão que conviver. Diante dessa possibilidade, que posturas novas poderíamos adotar? 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sou do coletivo das más feministas

A minha posição de fala é de uma feminista branca acadêmica, que milita na escrita e no cotidiano. Quando falo em cotidiano, falo nos embates do dia a dia, na relação com meu marido, nas conversas de família e na sala de aula. Sou uma feminista em processo de desconstrução de preconceitos, de machismos, que não nasceu pronta e que nunca vai estar porque a vida é uma construção. Sou uma feminista que não aceita a designação de cisgênero, pois não preciso de mais uma classificação criada por outros grupos para me enclausurar.

Ouço e leio muitas feministas sugerirem como uma feminista deve ser: devem falar a partir de coletivos feministas, porque é impossível um feminismo solitário, que se faz sozinha. Sinto que recaem hierarquias entre quem faz feminismos na Academia, na escrita, na sala de aula e na internet, como se estes fossem menores em relação aos de rua.


Portanto, minha posição social é de uma má feminista: aquelas feministas que não querem abandonar sua fé, que tentam ser pessoas melhores com a Bíblia, as cristãs; que não procuram o quantum de feminismo na outra, que não tentam criar hierarquias entre nós ou barreiras, que não confeccionam a carteirinha de feminista e ficam tentando ver quem pode ter a credencial para entrar ou não. Sou das feministas que não problematizam tudo porque isso me esgota e eu também preciso viver; que ouvem Beyoncé, Britney Spears, Rihana e se sentem mais empoderadas com isso. Sou daquelas que aproveitam as rebarbas do feminismo apropriado pelo mercado: nas maquiagens, nas músicas, nos filmes. Sou heterossexual, casada com um profissional da segurança pública, com ideias bem diferentes das minhas em alguns aspectos; sou uma feminista que não tem um cotidiano organizadinho como outras manas dizem ter. Enfim, sou do coletivo das feministas reais, falhas, humanas e não daquelas inventadas. 

Ser a professora "mulherzinha"

Desde pequena eu gostava da cor rosa. Quando adulta, isso não mudou. Hoje meu uso da cor é consciente de que não é de mulher, porque cor não tem sexo.



Quando entrei na docência, percebi que muitas alunas disputavam comigo, certas vezes sem saber que estavam disputando. A disputa aparecia na forma de uma antipatia gratuita, nos risinhos entre elas, no incomodo claro de ter uma professora que “tinha cara de aluna” e não “de professora”, como muitas vezes ouvi; nas conversas insistentes durante as aulas, nas batidas fortes na porta, nas fofocas maldosas, nas piadas que eu fingia não ouvir, nos comentários desrespeitosos, no assédio. Não as culpo, pois somos educadas a concorrermos entre nós desde criança. Aprendemos isso nas novelas, nos filmes, nas músicas. É cultural, endêmico. A menina que disputa para ser a mais popular, a esposa que briga com a amante, a namorada que briga com a garota que dá em cima do boy e assim o patriarcado se mantêm, alimentado pela nossa concorrência.



A “tia” faz parte de um universo de escola primária e ela é representada como a moça boazinha, meiga, maternal. Incomum é professora no ensino superior. A sociedade não espera e nem está preparada para encontrar uma mulher na política, na direção de um ônibus, na construção civil e na docência no ensino superior.


Uma das minhas interlocutoras de pesquisa me ensinou algo interessante. Ela disse, a partir de experiência própria, que é difícil ser a mulherzinha em espaços de militância política, nos movimentos sociais, na Academia, em partidos políticos. Você precisaria incorporar elementos que remetem à masculinidade para ser aceita, respeitada (por homens e mulheres): racionalidade, tom de voz por vezes autoritário, falar mais alto que os outros. Preferi pegar o caminho inverso para insistir na ideia de que sim, é possível uma “mulherzinha” nesses espaços. Então, antes era só uma questão de gosto, hoje é uma questão política também, uma política inscrita no meu corpo.




Hoje meu uso da cor rosa é político. Eu me monto com a cor rosa, sapatos de plástico, maquiagens, batons, laços no cabelo. Espera-se de um professor que ele seja homem, mais velho, estritamente racional e distante dos alunos. De mim podem esperar uma professora com cara de menina (porque isso, por mais que eu tente, não posso mudar), meiga (porque jeito também é difícil de mudar e eu prefiro a meiguice do que a dureza de personalidade), sorrisos soltos, gentilezas, uma mulher que usa pastas de bolinhas. Insisto: uma mulherzinha também pode ocupar a sala de aula, a docência, a Academia e a militância. É possível exercer autoridade e respeito em cima do salto alto cor de rosa choque. Afinal, autoridade é bem diferente de autoritarismo. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

"Somos quem podemos ser", como diz o poeta

Eu queria dizer que sou um poço de contradições. Eu não sou o que ninguém aqui gostaria que eu fosse. Ainda que eu juntasse numa só pessoa o que cada um queria que eu fosse, ainda assim eu não seria perfeita e desagradaria outros tantos. Então, quem sabe uma saída menos conflituosa para isso tudo não seria aceitarmos as nossas contradições e as dos outros?

Jesus Cristo estava muito certo quando indagou para que olhássemos primeiro para a trave que estava no nosso olho antes de olhar para o cisco no olho do irmão. Ele sabia que o ser humano teria mesmo a tendência quase carnal para fazer isso.



O meu convite é: bem vindos a essa imperfeição e grande contradição que somos nós, seres humanos. Quão bom seria aceitarmos essa condição tão natural do ser humano! Se aceitássemos isso a condição de aceitarmos os outros seria mais fácil.

Então, vocês que estão aqui, o convite é: me aceitem e se aceitem! E se não puderem me engolir mesmo: me excluam! Eu não vou entender porque sempre prefiro o diálogo, mas vou aceitar.

Eu sou péssima com datas festivas. Heranças maternas! Fico numa bad horrível na semana do meu aniversário e no dia, então...!



Paguei caro e à vista pelo amor de um dos meus melhores amigos, meu cachorro Tunico, um yorkshire terrier com pedigree. Não foi por achar que os de raça tenham mais valor, mas moro num apartamento e queria a sensação de controle sobre o quanto ele poderia crescer ou a bagunça que ele poderia causar. Ainda não encontrei um lugar que doasse yorks... Quando souberem, me avisem! Comprei e não me arrependo. Na verdade, foi a melhor compra da minha vida! Foi a única compra que me trouxe amor e fidelidade em troca.



Casei com um guarda municipal. Tenho orgulho de vê-lo fardado porque só nós dois sabemos o preço que custou até ele vestir essa farda. Eu também sonhei muito vestir uma farda um dia. Quis muito ser de colégio militar e vou acabar projetando isso nos nossos filhos, inevitavelmente.

Meu marido pensa diferente de mim em alguns aspectos, mas é nos braços dele que eu encontro paz. Nossas diferenças são mínimas dentro desse abraço e dos risos que ele me proporciona.

Não acredito no fim da propriedade privada, também sou cética quanto ao fim do capitalismo. Sou pessimista quanto ao ser humano, mas acredito numa sociedade que amanhã possa ser mais justa que a de hoje e a de ontem.

Sou feminista, mas confesso que tenho ficado cada vez mais com receio de me afirmar como tal. Aproximar-me dos feminismos para pesquisar me fez ver as disputas internas por posição, para quem fala no centro, as classificações criadas. Antes eu idealizava os movimentos sociais e hoje já não sou mais capaz disso. Idealizava a universidade, mas, como diz um grande mestre: ela desperta o pior das pessoas. Digo mais: ela mexe com egos!

Eu até gosto de problematizar as coisas, mas me preocupo quando isso se transfere demasiadamente para o cotidiano e como transformamos nosso dia a dia em trincheiras de guerra. É complicado acionar a reflexiva e a questionadora a todo o momento. Isso cansa também! Eu preciso do botão desligar a reflexiva para viver e também conviver.



As pessoas falam muito em armas de fogo, em bombas de efeito moral, mas para mim a arma mais mortífera é a língua. Ela aciona o ódio, as fofocas, as intrigas, as mentiras. A arma da língua tem o poder de matar pessoas em vida.



Eu não acredito numa sociedade sem polícia, mas acredito numa outra forma de polícia que seja possível, numa polícia comunitária.

Existem pessoas que me fazem querer desistir de tudo que conquistei até aqui. No entanto, quando recordo a batalha que foi chegar até aqui eu paro e penso duas vezes.

Sou daquelas feministas cristãs. Enxergo a Bíblica com outros olhos e acho isso plenamente possível.

Eu nunca disse Fora Temer. Para dizer isso eu precisaria colocar os outros foras juntos e talvez não terminasse hoje. Admiro quem é Fora Temer todo dia no facebook, mas eu prefiro postar a foto do meu cachorro, falar bobagens no blog, ver as tirinhas do suricate seboso.



Acho engraçado quem anula os outros que discordam de você. Se eu fosse aplicar isso ao pé da letra, eu começaria com minha família, meu marido e terminaria numa ilha sozinha, apartada da sociedade. Acho muito interessante quem deseja uma terra dos smurfs, todos da cor azul, sendo que o colorido é mais rico.



Eu sou evangélica assembleiana. Eu tento fazer a coisa certa e ser condizente com a minha fé. Às vezes eu fico moída por dentro para manter os outros inteiros; às vezes dou o outro lado da cara para bater; às vezes fico em silêncio para não me irar, não magoar, não responder na mesma altura, não entrar em brigas desnecessárias que tirem minha paz de espírito: às vezes sorrio querendo chorar. Ninguém é capaz de ver isso. E por mais que eu tente, sempre haverá alguém para dizer que não é verdade, que eu sou o oposto disso. Sempre haverão aqueles que esperam para me rotular como fundamentalista, conservadora, mas outros já tem a convicção e nem adianta que eu me explique.

Cansa tentar ser boazinha demais, acessível demais, delicada demais. Pesa! Às vezes eu quero até que me tomem como má, chata, egoísta. Essa imagem de mim mesma parece bem mais humana.

Eu não consigo mensurar o sofrimento das pessoas. Num plano coletivo isso é possível, mas num plano individual, das subjetividades, isso é impossível. Acredito naquele ditado "Cada um sabe onde o sapato lhe aperta.". Faço terapia. Brigo com minha psicóloga porque incorporo esse discurso e acho que minhas dores são menores que a de todo mundo, mas só quem sabe das minhas dores sou eu.

Sinto medo quando as pessoas gritam: "Fascistas não passarão!" e não conseguem enxergar os fascismos em si mesmas.



Não sei lidar com crianças, mas quero ser mãe.

Eu ainda fico surpresa com as coisas que inventam ao meu respeito. Até hoje não entendo o motivo das pessoas preferirem falar de mim e não comigo. As pessoas não só inventam coisas sobre mim, elas ficam com raiva, elas passam a me tratar com desdém. Entendi que por mais que eu as trate com educação ou mesmo amor, não vai adiantar: elas vão continuar. Não importa o que eu faça.



Então, deixem-me ser o que sou e se deixem ser quem vocês são! Ninguém está parado no tempo. As palavras não estão congeladas no tempo também. As pessoas mudam e vão refazendo suas posições. O sempre para qualquer pessoa é uma palavra forte demais, definitiva demais para ser dita. O que sou hoje não corresponde bem ao que eu era ontem. Somos mais que o sempre, somos pessoas em constante movimento. Somos com o que estamos. As pessoas se movem no mundo. Como diz o poeta Humberto Guessinguer: "Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter".